6 de ago de 2015

eu, Tu & eles - o equilíbrio entre ser ministro e ser gente

“Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam. Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem.” I Co 10:23-24
Existe uma tensão natural na vida de cada Cristão que alcança proporções muito mais elevadas na vida de Ministros, pessoas que estão em evidência pelo ministério que exercem. A tensão é: como posso ser quem eu sou e ao mesmo tempo colocar o interesse do outro acima do meu?
A nossa época parece polarizar a vida do Ministro em dois extremos. Por um lado existe o grupo que exige a ausência completa de personalidade ou de traços pessoais para se encaixar em um molde que possa agradar a todos, ou pelo menos à “maioria”. Muitas vezes o que se diz ser o gosto da “maioria” acaba sendo definido por uma minoria eclesiástica ou uma liderança pouco representativa.
Do outro lado existe um grupo que acredita que o Ministro deve ser autêntico. Autenticidade é definida como o Ministro dar vazão a todas suas ideias, preferências e gostos. Justifica-se esta atitude afirmando que qualquer outra coisa seria hipócrita. Hábitos lícitos, todavia inconvenientes, são interpretados como expressão de autenticidade em vez de serem compreendidos como imaturidade, seja pessoal e/ou ministerial.
Aqui o texto de Paulo é relevante. Ele afirma que há espaço para diferença de opiniões e que grupos diferentes terão definições diferentes a respeito daquilo que é “lícito” e “inconveniente.”
Um excelente exemplo é a compreensão de Paulo em relação à função da mulher naquela época. Por um lado ele afirma que a mulher deve ficar calada na congregação de Éfeso (I Tm 2:11-12). Ao mesmo tempo ela estava livre para orar publicamente e pregar na Igreja de Corinto, se colocasse um véu na cabeça (I Co 11:2-16). O que mudou? O autor e a época são as mesmas, mas a cultura local fez Paulo adaptar a recomendação. O princípio, no entanto, permaneceu: não causar distração ou escândalo à Mensagem do Reino. Época, cultura e geografia evidentemente exercem influência sobre coisas lícitas e inconvenientes.
Paulo deixa claro que há espaço para diversidade na Palavra de Deus e no Reino. Aceitar, compreender e abraçar esta diversidade não é uma opção, e sim um dever para aqueles que são cidadãos do mesmo.
No entanto, um importante traço que caracteriza o cidadão do Reino é a busca pelo do interesse do outro. É este tipo de atitude que divulga o Reino mais do que qualquer sermão, canção, reunião administrativa ou até batismo. E é este tipo de sacrifício que Deus pede de todos, inclusive de Ministros, pois estes estão em evidência de maneira especial.
Paulo deixa claro que há limites para expressão da personalidade e este limite está no próximo. Ele está ecoando o que já falou em I Co 8:9 (“Vede, porém, que a vossa liberdade não venha, de algum modo, a ser tropeço para os fracos”) e também o que Jesus já havia dito quanto ao “fazer tropeçar a um destes pequeninos” (Mt 18:6; Mc 9:42; Lc 17:1).
Ministério é serviço. Serviço, no entanto, é muito mais do que pregar, cantar, batizar, dirigir uma comissão ou qualquer outra atividade comumente associada ao Ministério. Isso é fácil! Difícil é abrir mão de si mesmo em função daqueles que nos cercam, primariamente os que convivem conosco no cotidiano e, secundariamente, que estão sob nossa influência ministerial. Afinal, não servimos a um nicho sociológico, mas sim a todos que influenciamos.
É claro que também este crescimento no servir é imperfeito e frágil. Quantas vezes temos que reconhecer que erramos, pedir perdão a Deus e ao nosso próximo e continuar na busca de nos submeter à vontade Dele? Se não tenho feito isso ultimamente, quem sabe esteja na hora de parar e avaliar.

Nesta (auto) reflexão sobre ministério chego a uma óbvia conclusão: preciso permitir que o Senhor tire as minhas vontades e preferências de dentro de mim e as substitua pela Sua vontade, pois somente esta é perfeita. Como consequência não deixarei de ser quem sou, não perderei a minha personalidade; eu serei o melhor eu possível, pela Sua Graça e pelo Seu poder.

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