21 de jan de 2009

absolutos vs. relativos (i.e. limites & liberdades)


Ontem foi um dia histórico. É um clichê, mas tenho que sucumbir ao mesmo: Barack Hussein Obama se tornou o 44º presidente dos Estados Unidos da América.
O que tornou interessante esta sua caminhada e provavelmente continuará atraindo olhares curiosos com esperanças e expectativas são, entre muitas coisas, os detalhes sutis e não-tão-sutis que o acompanharam nesta jornada... a escolha de Abe Lincoln como seu 'padrinho político', seus modos tranquilos, distintos e aparentemente seguros, sua capacidade incrível de se comunicar com a juventude usando todos os meios virtuais de maneira extremamente eficaz, seu carisma hollywoodiano, discursos cheios de conteúdo sem perder a emoção, o fato de ser esportista, a sua vontade de, apesar de tudo, querer ser um pai participativo, etc., etc., etc., e o óbvio ululante quanto a sua origem racial tornam este homem digno de observação.
Ninguém sabe o quanto disso é show ou se alguém pode ser tudo isso e ainda ser um bom presidente e, apesar dos pesares, liderar todo o mundo do comércio 'livre'. Sabemos que não dá para alcançar tudo isso, mas dá vontade de torcer por ele... ele é likeable, uma pessoa que facilmente cativa simpatia.
No entanto ele possui alguns paradoxos, paradoxos que motivaram esse post. Um deles é uma aparência e atitude idealista (campanha limpa, fortes declarações enfatizando que fins não justificam meios) em aparente contraste (pelo menos para mim) com um discurso pragmático, demonstrando vontade de abrir mão de certas coisas para que haja eficiência. Em tese é uma idéia maravilhosa digna de louvor, mas paira a pergunta: Do que ele estará disposto a abrir mão para alcançar esta eficiência? Qual o custo da união universal? O que é princípio (que ele chamou de true values no seu discurso de posse) e o que é aplicação de um princípio (um inegociável e outro aberto à interpretações)? Afinal: o que é absoluto e o que é relativo?
Essa pergunta é profundamente filosófica e até diria que é profundamente religiosa já que invariavelmente vai lidar com crenças. Não tem como respondê-la sem crer em algo. Crer na existência ou inexistência (Niilismo), crer no sobrenatural (Deísmo, Teísmo e Panteísmo), na ausência do mesmo (Ateísmo) ou na incapacidade de sabermos por certo se existe o metafísico (Agnosticismo), crer na Evolução, no Design Inteligente ou na Criação... eu acredito que vocês entenderam a idéia. São muitos os paradigmas que temos que aceitar crendo, geralmente baseado em evidências, mas não em provas.
Muito mais importante do que os ismos são as nossas atitudes e ações, pois revelam verdadeiramente quais os nossos princípios.
Eu posso ser rotulado de várias coisas, mas com certeza não de pró-americano. Apesar disso tenho certa admiração pelo sistema democrático americano manifestado em sua peculiar forma de votação. Profundamente criticado internacionalmente e até várias vezes usado como antítese do conceito básico de Democracia (inclusive por mim), especialmente depois do fiasco que foi a votação do primeiro mandato de George W. Bush, eu confesso que só recentemente me dei conta da verdadeira razão deste método. O método pode não ser o melhor (definitivamente não o é), mas a motivação é simples e, a meu ver, correta: Democracia não deve ser a ditadura da maioria.
A Democracia dá amplo espaço para a manifestação da maioria e em muitos casos é a mesma que toma as decisões, mas a maioria não é vista como absoluto. A opinião pública, por mais forte que seja, precisa ser avaliada baseado em algo que é maior, que vai além. Opinião pública e senso comum podem mudar e ser mudados (i.e.: manipulados) como podemos facilmente constatar hoje e os criadores da Declaração da Independência americana sabiam disso e haviam sofrido isso na própria pele. Todos eram cristãos convictos e, portanto, acreditavam que existiam princípios absolutos, inegociáveis (e fundamentados na Bíblia), mesmo que a maioria estivesse contrária aos mesmos. ¹
Todavia hoje em dia nota-se uma forte tendência em deixar com que as grandes massas (ou aqueles que têm os meios de comunicação para influenciá-las) tomem as decisões a respeito do que é certo e errado, bom e mau, moral e imoral... na prática existe um terrorismo quanto ao políticamente correto, uma ditadura de poucos que manipulam uma grande massa de pessoas que vagueiam pela vida de forma inconsciente (hellooooooooooooo Weber).
Exemplos disso superabundam! Conceitos de estética (física, artística, filosófica), sexualidade (e.g. fidelidade, homossexualismo), comportamentais (e.g. feminismo, machismo), religiosidade (e.g. sincretismo, dogmatismo) e tantos outros são oficialmente individuais, mas se a sua visão afirma coisas absolutas e faz juízo a respeito de comportamentos e/ou idéias de outras pessoas perceberá rapidinho o que significa rejeição, ostracismo e todos os tipos de atos de violência.
Eu entendo o receio. Sou fruto da minha época também. Absolutos têm sido usados e abusados por radicais para justificar o injustificável e para exercer falsa justiça, geralmente em nome de Deus. Associamos absolutos a extremistas (muitas vezes religiosos) e de forma alguma quero ser visto como tal. Mas isso não significa que devemos abandonar o uso de absolutos e sim estudar meios para encontrá-los com critérios racionais, questionando se o que tem sido rotulado desta forma de fato é um princípio inegociável e, se for, se a aplicação do mesmo tem sido feita de forma devida.
O que isso tem a ver com o Obama? Simples: ele terá que fazer escolhas, escolher o que ele considera negociável e o que ele considera acima de qualquer negociação. Até agora ele tem conseguido incorporar vários paradoxos, criando uma atmosfera dialética e de diversidade, mas mais cedo ou tarde terá que tomar decisões que fere um dos lados. Existem vários exemplos disso:
Ele convidou fiéis defensores do atual sistema econômico para fazer parte de sua equipe financeira, mas fala com clareza que uma alternativa terá que ser encontrada e de forma rápida.
Ele prometeu investir em energia limpa, mas um dos maiores prejudicados (economicamente) serão os próprios Estados Unidos, pelo menos inicialmente.
Ele prometeu trabalhar pelo desarmamento, mas a indústria bélica dos Estados Unidos faz girar um belo porcentual do dinheiro que aquece a economia interna e externa.
Ele é democrata, partido que tradicionalmente apóia o direito de casamento entre homossexuais, mas quem fez a oração da sua inauguração foi nada menos que Rick Warren, um influente pastor evangélico que embora não condene homossexuais, argumenta biblicamente que a prática homossexual não é da vontade de Deus.
Não quero e não sou um daqueles evangélicos e adventistas masoquistas que querem ver o circo pegar fogo para o fim do mundo chegar logo e ir para o céu. Sinceramente torço pelo Obama. O acho admirável e quero muito que ele encontre uma fórmula para administrar as opiniões e tensões internas e externas de seu país. O mundo tem muito a ganhar com um líder que é idealista e pragmático. Fomes podem ser diminuídas e até erradicadas, injustiças sociais (seja lá qual for a definição das mesmas) podem ser amenizadas... enfim: o sofrimento humano pode ter um tempo de trégua que factualmente faria diferença para milhões, quem sabe bilhões de indivíduos e suas famílias. A existência das pessoas pode se beneficiar de um forte líder que é justo e coerente, que sabe o que defender e sabe o que pode ser negociado.
Que ele, Obama, tenha consciência do Salmo 101 (Salmo do príncipe ou rei) e que eu (e de repente nós) faça a minha parte seguindo I Tm 2:1-2 sem me esquecer de I Tm 1:17.
forte abraço
Shalom

¹ Francis Schaeffer usa este e outros fatos com muita maestria em vários dos seus escritos para demonstrar que a imposição da Democracia em países que não têm raízes sociais judaico-cristãs estará sempre fadada à ruína, pois o equilíbrio entre liberdade e limites só se encontra desta forma na Bíblia. Ele deixa claro que não se trata de uma questão teológica e sim do uso Dela como base para regras sociais.

10 de jan de 2009

derrubando mitos


Neste último mês pude realizar algumas Santas Ceias no meu distrito pastoral e me deparei, mais uma vez, com um mito que persiste não somente nas Congregações das quais cuido, mas aparentemente no meio evangélico em geral. Argumenta-se que quando não estou bem com o meu próximo não devo participar desta principal festa cristã ("... Santa Ceia não é para conversão de pecadores e sim para edificação de discípulos" segundo Spurgeon, cujas idéias eu utilizo como fonte de motivação e inspiração para este post).

Tenho tentado me dedicar à erradicação deste falso mito, mas percebo cada vez mais quantas coisas nós fazemos no piloto automático (e realmente me incluo neste 'nós') sem de fato compreender o que estamos fazendo ou o que está por trás de cada ato. Convenhamos, é tão mais fácil viver a vida de forma aparentemente livre, leve e solta em vez de refletir em cada ato e atitude. É, de fato, muito cansativo...

Foi há relativamente pouco tempo que eu me dei conta de que a visão tradicional a respeito do pré-requisito para participar da Santa Ceia estava profundamente equivocada. O texto diz pura e simplesmente “Examine-se, pois, o homem a sim mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.” I Co 11:28 (ênfase minha)

Segundo o texto o único pré-requisito é o auto-exame, a auto-avaliação... o olhar no espelho. E o mais interessante é que não é um pré-requisito eliminatório. O texto não diz que depois de me examinar eu possa decidir se eu devo participar ou não. Esta opção não foi dada! Paulo fala que “e assim” eu devo prosseguir e participar do pão e do cálice, dos símbolos que representam a minha aceitação da morte de Cristo em meu lugar.

Fiz questão de dar uma olhadela na palavra original em grego (οὕτω - houtō) e não tem escapatória: tanto a auto-avaliação como a participação na Ceia do Senhor são obrigatórias. Participar indignamente é participar sem se examinar, sem se preparar, sem olhar a fundo para si mesmo e compreender onde eu estou espiritualmente e o quanto eu ainda preciso crescer.

Ai daquele ou daquela que depois dessa avaliação chegar à conclusão de que pode participar dignamente desta festa espiritual. É exatamente este resultado que mostraria quão profundamente equivocado eu estaria e demonstra que não há verdadeira compreensão do que significa a morte Dele em nosso lugar... afinal, nunca seremos merecedores e dignos por conta própria para receber este presente. É a Misericórdia de Deus que nos dá a chance da Salvação de graça, realidade que é celebrada na ceia do Senhor.

O resultado do “examine-se” deve ser 1) a compreensão profunda de que não sou digno e 2) uma análise realista a respeito da minha caminhada com Deus conduzida pelo Espírito Santo. Conseqüentemente eu irei, com ajuda Dele, ver onde preciso crescer, quanto mais tempo precisarei passar com Ele e quanto mais eu devo amar o meu próximo, pois Ele me dá poder para isso. Compreendendo o meu estado de indignidade pessoal e com metas espirituais específicas eu participo não sozinho, mas com semelhantes nessa caminhada que são igualmente indignos. Ao participar da Ceia com esta consciência eu passo a discernir o corpo de Cristo (I Co 11:29) que é o seu povo, o meu irmão e irmã, aqui na Terra. Como indignos participamos juntos da Graça e Misericórdia de Deus para conosco, conscientes de que somos um Nele.

O resultado de uma Santa Ceia de forma consciente é infalível. Conscientiza, une, restaura relacionamentos (com Ele e com o próximo) e objetivos, fazendo com que todos se sintam um.

Nunca, repito NUNCA eu devo deixar de participar de uma oportunidade dessas. A maldição que recai sobre o participar indignamente é a mesma para quem não participa: é a maldição da não-salvação... da perdição.

De repente em outro post descrevo algumas sugestões bíblicas de como fazer esta auto-avaliação, mas por enquanto é só.

Forte abraço

Shalom


imagem: estudo para "Santa Ceia" de Leonardo da Vinci