27 de jan de 2010

derrubando mitos II: Templo & Igreja

Como havia declarado no meu post anterior, pretendo discutir alguns assuntos que considero fundamentais para poder iniciar um debate saudável em torno da música e adoração na vida cristã.

Decidi começar abordando um tema que tem confundido muita gente. Esta confusão não é deliberada, pois a mesma foi pregada de púlpitos durante muitos e muitos anos e até hoje, vez ou outra, ainda pode-se ouvir por aí alguns relacionarem Templo e Igreja de forma explícita ou implícita.

Este erro advém de uma má compreensão do que é o Templo e Igreja e quais as suas respectivas funções. Esta incompreensão até tem afetado o planejamento arquitetônico de muitas Igrejas mais antigas, onde a nave da Igreja é tida como o pátio do Templo, uma plataforma mais alta é vista como o Santo (geralmente de onde era/é liderada a Lição) e o local mais elevado é denominado o 'Santíssimo', alegando que o púlpito seria o altar do mesmo onde é oferecido o sacrifício da Palavra de Deus, a Bíblia.

Não pretendo ser apologético e exaurir todos os erros que resultam desta visão, pois creio que cada leitor(a) será capaz de deduzir e imaginar quais as possíveis conseqüências desta visão.

A confusão é resultado do equívoco na compreensão da transferência do Ritual do Santuário do plano físico para o abstrato que ocorre no Novo Testamento. Paulo discorre com maestria a respeito deste assunto especialmente na epístola aos Romanos e Pedro em várias ocasiões faz referência a este tema.

De forma resumida esta transferência consiste na passagem do uso do Templo físico, onde ocorria a dramatização do plano de Salvação e Expiação através do Ritual do Santuário, para uma visão abstrata. Com a morte de Cristo na cruz o Santuário terrestre perdeu o seu significado. O véu do Santuário foi rasgado de cima para baixo (Mt 27:51) denotando o cumprimento daquele tipo de forma física.

O Novo Testamento declara que após a morte de Cristo o povo (invisível) de Deus passou a ser o Templo do Espírito Santo, tanto como coletividade (I Co 3:16) como individualmente (I Co 6:19). O sacerdócio passou a ser, de forma individual, de todos os santos (I Pe 2:5-9). O sacrifício diário ocorre dentro de nós ao sacrificarmos o nosso eu, dando espaço para Cristo pela fé (Gl 2:19-20). O Sumo Sacerdote, Aquele que faz expiação por todo o Templo, é Jesus Cristo (Hb 4:15). A linguagem utilizada recorre sempre ao uso da linguagem que se referia ao Ritual do Santuário no Antigo Testamento.

Ao entender que a transferência do Ritual do Santuário ocorreu do físico para o abstrato torna-se necessário analisar qual, de fato, a função da Igreja e como ela surgiu.

Uma simples pesquisa sobre a origem da Igreja Cristã revelará rapidamente que as suas raízes se encontram muito mais na instituição da Sinagoga do que em qualquer outro lugar, afinal, os primeiros conversos foram Judeus que aceitaram Jesus, o Caminho, como Messias.

A Sinagoga surgiu no período pós-exílico. Ela foi aos poucos desenvolvida para manter a identidade, espiritualidade e religião judaica viva, assim evitando a quebra da Aliança. A deportação ou exílio havia sido reconhecido como a conseqüência máxima desta quebra e medidas foram tomadas para que isto não acontecesse outra vez. Instituíram as Sinagogas como Centros Comunitários de Estudo e Adoração e ao longo do tempo um grupo de estudiosos se formou para dirigir as mesmas. Assim surgiram as reuniões sabatinas para estudar a Torah em edifícios em vez de praças públicas, etc., e, aos poucos, criou-se uma liturgia que se desenvolveu até os dias de hoje. O Templo, em si, só servia poucas vezes para reuniões de assembléia e mesmo assim, somente o pátio era usado.

Creio que fica evidente que as funções que hoje a Igreja cumpre se espelham nas reuniões da Sinagoga e não no Ritual do Santuário que ocorria no Templo. Uma vez compreendendo isto fica mais fácil evitar transferências errôneas da realidade do Templo para a realidade da Igreja. É claro que existem semelhanças, como também haverá semelhanças em outras áreas de vida cristã, pois todas são interligadas pelo mesmo propósito: adorar e servir a Deus. No entanto será necessário ter consciência profunda da função de cada ato para poder encontrar a forma mais adequada para cumprir a desejada função.

Desta forma creio que todo leitor será capaz de entender que nada que se refere ao Templo seja aplicável sine qua non para a Igreja e vice-versa. É necessário um estudo aprofundado para poder fazer afirmações acertadas e seguras, pois construções argumentativas frágeis e tendenciosas têm a tendência de soterrar a médio-longo prazo os arquitetos das mesmas.

Quero deixar claro que não considero as falhas do passado um problema em si, pois todos nós, como indivíduos e como instituição, estamos sujeitos a erros. Considero a falta de reconhecimento das falhas como sendo o maior problema, pois o erro arraigado e até institucionalizado tem a tendência de dificultar, em muito, mudanças profundamente necessárias para o nosso cotidiano cristão. O conceito de Verdade Presente deve ser uma realidade e não uma teoria acadêmica que não encontra respaldo nas práticas do dia-a-dia.

Que estas poucas palavras auxiliem na busca de uma compreensão mais sólida a respeito da adoração em nossos Cultos e assim sirvam de base para um culto consciente.

Um forte abraço

Shalom

17 de jan de 2010

a ignorância é atrevida

Nos últimos quatro a cinco anos tenho percebido (com certa preocupação) uma intensificação da discussão de música & adoração, música sacra e assuntos afins. Estes assuntos estão longe de ser novidade, mas recentemente parece haver um esforço diferenciado em torno deste assunto. Quero deixar claro que nos meus 11 anos de ministério não tenho me manifestado publicamente a respeito deste assunto a não ser quando solicitado de forma específica e explícita.

Apesar de possuir condições técnicas de discutir este tópico, pois sou formado em teologia, sou pastor ordenado e sou músico, tenho me refreado de discuti-lo pelas seguintes razões:

1) discutir com quem tem pouco conhecimento formal, seja teológico e/ou musical sempre é algo delicado, já que termos técnicos precisam ser explicados de forma profunda e exaustiva. No entanto, este esforço é feito sem que haja a certeza de que o outro lado irá compreender corretamente o que foi explicado, seja por falha da explicação ou do ouvinte. Este motivo sozinho não justifica a falta de participação, pois ele é comum à todas as áreas do saber e se todos adotassem esta atitude ninguém aprenderia nada novo.

2) este assunto mexe profundamente com gostos pessoais e toda vez que especialmente música e religião são o tema central existe uma certa mistificação do assunto, além de um certo deslumbramento e encanto, especialmente por parte daqueles que pouco conhecimento têm. Este deslumbramento unido aos gostos pessoais anuvia muitas vezes o bom juízo e a capacidade de discernimento, fazendo com que pessoas partem para eisegeses em vez de interpretar textos da forma mais isenta e correta possível. Desta forma discussões que poderiam ser saudáveis se tornam pivô de julgamentos apaixonados e muitas vezes não refletem nada do verdadeiro espírito cristão que deveria reinar quando se discute um assunto tão relevante e significativo. A falta de cordialidade e respeito tem marcado muitas destas discussões.

3) por fim, tenho visto que a maioria das pessoas não está aberta a mudanças, algo que é extremamente humano. No entanto, parece que quando o assunto é música e adoração esta teimosia é intensificada. Para mim sempre surge a pergunta: porque devo me expor a ser mau compreendido e até ser julgado pelo meu próximo se não há aparentemente uma ínfima possibilidade de surtir algum efeito? Tem todos os ares de um trabalho de Sísifo.

Todavia devo admitir que tenho visto tanta gente escrever recentemente sobre esta área, pessoas que aparentemente se enquadram em algumas características que descrevi acima, que com muita oração cheguei à conclusão de que devo participar sim deste debate.

Procurarei não ser apologético, quando possível. Procurei colocar fatos e não opiniões.

Um fato é que a maioria daqueles que escrevem a respeito deste tema são pessoas amadoras e, portanto, apaixonadas e não poucas vezes carecem de competência técnica nas duas áreas. Isso não significa que não devam participar, opinar, escrever ou falar.... de modo algum! Só quero classificar estas contribuições. Reparem na seguinte analogia:

Você está com sintomas sérios de alguma doença. O seu vizinho, seus familiares, seus colegas de trabalho, todos sem formação na área de saúde e igualmente muito bem intencionados lhe aconselham várias soluções caseiras para os seus males. Seus sintomas, no entanto, são tão severos que você procura um médico. Este médico lhe examina e chega à conclusão que o seu caso é um caso de um especialista e lhe encaminha para um profissional que terá conhecimentos específicos para lhe ajudar.

Agora, é possível que o remédio caseiro resolva o caso e até pode ser que o médico especialista não resolva, mas não seria razoável dizer que a opinião do especialista, apesar de não ser palavra final, deveria valer muito mais do que a opinião do seu vizinho que não tem formação nenhuma?

Tem muito vizinho opinando na música & adoração, pouco médico falando e, aparentemente nenhum especialista.

É necessário que os vizinhos se enxerguem, os médicos sejam humildes para repassar o caso e os especialistas tenham coragem de se manifestar.

Acredito que chegou a hora!

um forte abraço

Shalom