16 de dez de 2009

o Oráculo de Google*

Que o Google é hoje uma das maiores potências do mundo poucos terão coragem de desmentir. Que a maioria dos seus produtos ao entrar no mercado já imediatamente atraem uma porção impressionante do mercado no qual acabaram de estrear é fato dado. Eu mesmo estou cada vez mais me tornando usuário dos seus produtos. Orkut (meio antiquado, mas que continua vivo graças à última cirurgia plástica), Blogspot, Google Calendar e, em especial, o Chrome e o Gmail têm se tornado companheiros indispensáveis para mim. Todavia, nenhum destes itens é objeto das minhas considerações hoje.

Todo este império começou com uma simples ferramenta de busca: o Google. Esta ferramenta é tão absurdamente popular que googlear já tem significado próprio. Qualquer coisa, qualquer dúvida, qualquer informação da qual precisamos tem uma simples solução: Google! Em poucos segundos temos, dependendo do nível de especificidade da pesquisa, milhares, muitas vezes milhões de resultados. De forma até lacônica vem a informação de quantos segundos levou para reunir todos esses dados com duas casas decimais após a vírgula, uma clara demonstração de exatidão e poderio que chegaria a intimidar se não fosse tão discreto. A mensagem, no entanto, é clara: comigo ninguém pode... nem tente.

O que, no entanto, me levou a estas considerações é algo que, em minha opinião, reflete perfeitamente o nosso Zeitgeist, o espírito pós-moderno desta nossa época. Se o Google somente reproduzisse os resultados da nossa pesquisa ele representaria os valores da época moderna, época que se encerrou com o fim da Segunda Guerra Mundial.

A época moderna se preocupava com fatos, com a ciência, com a evolução das idéias, da tecnologia, tudo centrado na capacidade do ser humano e na sua auto-superação. Sem querer me aprofundar (poderá ser tema para outro post), mas a presença da Revolução Industrial, do Positivismo e sua evolução (o pensamento Hegeliano e a dialética), a Teoria da Evolução de Darwin e do Existencialismo (especialmente de Nietzsche) não parece ser coincidência.

A falácia desta era moderna foi decretada através das duas grandes Guerras Mundiais. Ficou evidente que o ser humano era mau e que a ciência e o avanço não poderiam salvar a humanidade de si mesma.

Simplificando de forma grosseira foi basicamente através de Freud e Einstein que a nova era, a era pós-moderna, deu os seus primeiros passos. O primeiro demonstrou que temos sérias dificuldades com as nossas emoções e que a nossa percepção do nosso mundo é subjetiva e distorcida. O segundo trouxe para nós o relativismo que mexe profundamente com paradigmas anteriormente estabelecidos em todas as áreas do saber e deixou claro que ainda há tanto para ser conhecido. A nossa pequena capacidade racional não dá conta de captar, muito menos explicar o que nos cerca. Surge a época da busca pela fé, pelo sobrenatural e por experiências emocionais que não estejam ligadas ao status quo religioso, dando surgimento a muitas religiões sincretistas e a busca de religiões pouco conhecidas no ocidente. O êxtase e a emoção se tornaram importantes e socialmente aceitáveis e a religião se tornou o lugar onde a maioria das pessoas as buscava. Religiões tradicionais tiveram que se adaptar aderindo a movimentos carismáticos e religiões que possuíam vertentes místicas observavam exatamente estas crescendo em popularidade e visibilidade. O subjetivismo e individualismo imperam. Fatos sem relevância perdem o sentido e as perguntas mais pensadas e expressadas são "O que isso tem a ver comigo? Qual o significado ‘disso’ ou ‘daquilo’ para mim?".

E agora, afinal, o que isso tem a ver com o buscador Google? Simples: a meu ver o grande sucesso do Google é que ele não somente trás informações, fatos. Se eu fizer uma pesquisa no meu computador com uma série de palavras e você fizer a mesma no seu computador os resultados serão diferentes (isso se tivermos os cookies habilitados). O Google não somente me dá os resultados da pesquisa, mas também aprende sobre as minhas preferências enquanto eu navego e pesquiso. Com isso ele coloca uma ordem diferenciada de resultados para mim baseado naquilo que eu considero relevante e importante. Os criadores do Google compreenderam o espírito da nossa época pós-moderna: fatos com relevância pessoal, algo sob medida de acordo com as minhas necessidades e preferências. Este é o segredo de sucesso deste império: produzir produtos que vêm ao encontro das minhas necessidades e que sejam configuráveis às minhas necessidades específicas.

Não é de se surpreender que muitos (possivelmente a maioria) tratam a religião da mesma forma: algo relativo e subjetivo centrada somente no indivíduo. Montam as suas crenças segundo as suas próprias idéias e acreditam que ter fé já é o suficiente. Não existem absolutos, somente verdades transitórias e experiências pessoais expressas em estórias cujos princípios precisam ser extraídos. Enquanto trouxer algo positivo para mim naquele momento a fonte destes princípios não terá importância.

Como afirmar que há alguma coisa absoluta em meio a esta época? Como afirmar que há um livro que seja, de fato, inspirado por Deus e imutável? Que Deus seria este? O Deus do Al Korão, do Livro dos Mortos, da Bíblia, etc.? Tudo se tornou tão relativo, tão inseguro, tão subjetivo e tão politicamente incorreto que temos receio de nos manifestar com certeza a respeito de qualquer assunto, especialmente religião.

(Vale aqui um rápido parêntese: viver aquilo em que eu acredito poder ser visto como sendo radical; obrigar o outro a viver aquilo em que eu acredito é ser fanático.)

A verdade é que o fim desta era pós-moderna já se manifesta. Sei que é muito cedo para analisar a mudança, mas mesmo assim ouso ser profeta da próxima era. Não que esteja sendo original (de forma alguma), mas a imensa maioria ainda não se conscientizou de que os tempos estão mudando.

Com 11/09, a grande crise financeira mundial e a mudança climática estamos aos poucos percebendo que o individualismo ao extremo têm trazido sérios problemas para a coletividade, o bem comum. Estamos mais dispostos a abrirmos mão da nossa individualidade para assegurar as coisas básicas da existência: segurança, sustentabilidade e sobrevivência.

Com o assalto que eu sofri neste final de semana passado surgiu um anseio em mim que antes não existia, pelo menos não desta forma: o desejo de segurança e do direito de viver com dignidade. Hoje estou um pouco mais disposto a abrir mão de algumas coisas em função disso e a luta interior entre o idealista e o pragmático provavelmente dependerá da quantidade assaltos, desempregos e vendavais/inundações pelos quais eu passarei no futuro.

Na prática estamos percebendo que o nosso modo de viver tem trazido tremendos prejuízos para nós mesmos e para aqueles que nos cercam. Vivemos uma crise global como provavelmente nunca dantes existiu. Depois de décadas vivendo desta forma o ser humano descobre que esta maneira ameaça diretamente a sua segurança, seu sustento e sua própria existência neste planeta. Está buscando uma saída, um novo jeito de viver e pensar apesar das aparentes dificuldades de romper com hábitos há tanto tempo estabelecidos. Procuramos um modo alternativo de viver, seja em termos de fontes de energia, de governos, de alimentação e de crenças.

Aceitar Deus como uma realidade em nossas vidas não somente foca um futuro paradisíaco após a morte. Não é algo que me ajuda somente a superar os problemas de hoje com a promessa do porvir. Esta aceitação nos habilita a viver esta vida aqui, neste planeta com estas pessoas que nos cercam com mais sucesso e satisfação (não me refiro aqui à ausência de problemas). Já que o nosso estilo de vida tem se mostrado tão ineficaz de resolver as maiores necessidades do ser humano talvez esteja na hora de nos abrirmos para a possibilidade Dele nos guiar em uma experiência de relacionamento com Ele. Acredito que vale a pena experimentar.

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é discernido.” I Co 2:14-15

Quem sabe você encontrou este post por algum produto do Google, seja pesquisa, e-mail ou Orkut... não importa: o importante é abrir espaço para experimentar algo diferente e novo ou, quem sabe, renovar o que já se tem.

Um forte abraço

Shalom

* o título é uma referência ao 'Oráculo de Delphi'

12 de dez de 2009

assalto

Ontem a noite sofri o primeiro assalto em minha vida.
Havia planejado prestigiar a ordenação ao ministério do meu grande amigo Pr. Sérgio Festa (que sobrenome!) e fiz os preparativos necessários para que pudesse estar lá.
Tudo começou quando eu perdi o meu vôo. Foi a primeira vez em toda a minha vida. Procurei por outros vôos, mas vi que todos eram muito, mas muito mais caros e, portanto, decidi pegar o primeiro ônibus que aparecesse na vergonhosa Rodoferroviária da nossa Capital Federal. Lá encontrei uma empresa que eu desconhecia, a Trans Brasil, mas que saia uma hora mais cedo que a outra e já que tinha pressa para chegar em São Paulo comprei a passagem.
Depois de aprox. duas horas e meia de viagem, sendo que grande parte deste tempo envolvendo atraso e trânsito para sair de Brasília, e pouco tempo depois de ter dado boa noite via celular para o meu filho e a minha esposa fomos todos surpreendidos por uma freada violenta do ônibus. O passageiro do outro lado do corredor olhou para fora e gritou: "É assalto!"
A partir daquele momento começou um dos episódios mais surreais de toda a minha vida. Gritaria, tiros, ameaças e provavelmente os 45 minutos mais longos e angustiantes dos quais tenho lembrança se seguiram. Eu acredito que só quem já passou por isso consegue entender o sofrimento deste tipo de situação, onde certas coisas passam a ser insignificantes e outras se demonstram ser prioridade absoluta como a vida e a família. Eu passei este tempo todo orando em silêncio e lembrando dos meus queridos.
Depois que tudo passou juntamos informações e vimos que o ônibus, uma vez abordado, havia sido levado para uma floresta, longe de qualquer pista movimentada. Também não havia sinal de celular nesta região e apesar de algumas pessoas terem conseguido esconder os seus estes se mostravam inúteis naquele momento. Três homens entraram no ônibus, mas havia pelo menos mais uma pessoa conduzindo uma camionete. Estavam armados com pistolas calibre 22 e espingardas 12 (fui informado disso, pois não entendo de armas). O trecho do assalto foi apox. 40km depois de Cristalina em direção a Catalão.
Levaram a minha bolsa que além de roupas e carregadores do Palm e celular continha equipamentos e acessórios de áudio (o meu recém adquirido DAC, cabos de interconexão e digital) que sozinhos valem aprox. USD 4000 (fora do Brasil; imagino o custo deles por aqui) e que os bandidos não conseguirão sequer vender. Tinha a intenção de visitar alguns amigos para ouvir música em São Paulo e costumeiramente levamos itens para testar nos sistemas de áudio uns dos outros. Também perdi os meus CDs prediletos, aqueles que pretendia ouvir na casa destes amigos e levaram o meu celular.
Não segui viagem para São Paulo, pois como não tinha mais roupas teria que comprar tudo por lá o que acarretaria muito custo para mim. Em função disso voltei à Brasília com mais dois passageiros no ônibus que foi alvo do assalto hoje de manhã. Somente chegando no condomínio onde moro liguei para minha esposa, pois não queria acordá-la no meio da noite com aquele tipo de notícia. Seria muito sofrimento desnecessário. Depois de contar um pouco do ocorrido cai exausto fisica e emocionalmente na cama.
Duas coisas positivas, no entanto, levo comigo deste incidente:
1) Há coisas valorosas e há coisas essenciais. Isso é tão óbvio e soa tão pastoral, mas existe um sabor diferente nesta classificação depois do episódio de ontem. Estou muito triste pela perda dos meus equipamentos, mas sinceramente dou graças a Deus pela minha vida e por ter o privilégio de continuar vivendo.
2) Apesar de ter passado por esta experiência traumática sinto que mesmo assim saí ganhando. Só quem vive este tipo de situação sabe quão angustiante é, mas de fato não é nada incomum. Quantas pessoas já passaram por aquilo que eu passei. A diferença é que quando alguém disser: "fui assaltado" ouvirei com os ouvidos da verdadeira empatia. Não acredito que temos que passar por tudo de ruim neste mundo para poder simpatizar com uma situação, mas percebo cada vez mais que a verdadeira empatia vem da experiência e não do exercício intelectual do 'se colocar no lugar de'. A partir de hoje tenho verdadeira empatia com que já passou por isso e creio que isso me tornará um cristão e ser humano melhor.
E agora também entendo melhor que só há Um que pode me entender completamente, Aquele que foi tentado em todas as coisas, e, portanto, tem verdadeira empatia com o que nós passamos em nosso difícil dia-a-dia. Me lembro das seguintes palavras do autor de Hebreus: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer- se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, para que recebamos misericórdia e achemos graça, a fim de sermos socorridos no momento oportuno." Hb 4:15-16
Graças a Deus por um Salvador que sabe das minhas e das suas lutas! Empatia é reconfortante, especialmente quando vem acompanhada da Onipotência.
um forte abraço
Shalom

Por sinal: se alguém já passou por isso e tem dicas de como tentar reaver as coisas via empresa, etc. por gentileza entre em contato! :D