27 de jan. de 2010

derrubando mitos II: Templo & Igreja

Como havia declarado no meu post anterior, pretendo discutir alguns assuntos que considero fundamentais para poder iniciar um debate saudável em torno da música e adoração na vida cristã.

Decidi começar abordando um tema que tem confundido muita gente. Esta confusão não é deliberada, pois a mesma foi pregada de púlpitos durante muitos e muitos anos e até hoje, vez ou outra, ainda pode-se ouvir por aí alguns relacionarem Templo e Igreja de forma explícita ou implícita.

Este erro advém de uma má compreensão do que é o Templo e Igreja e quais as suas respectivas funções. Esta incompreensão até tem afetado o planejamento arquitetônico de muitas Igrejas mais antigas, onde a nave da Igreja é tida como o pátio do Templo, uma plataforma mais alta é vista como o Santo (geralmente de onde era/é liderada a Lição) e o local mais elevado é denominado o 'Santíssimo', alegando que o púlpito seria o altar do mesmo onde é oferecido o sacrifício da Palavra de Deus, a Bíblia.

Não pretendo ser apologético e exaurir todos os erros que resultam desta visão, pois creio que cada leitor(a) será capaz de deduzir e imaginar quais as possíveis conseqüências desta visão.

A confusão é resultado do equívoco na compreensão da transferência do Ritual do Santuário do plano físico para o abstrato que ocorre no Novo Testamento. Paulo discorre com maestria a respeito deste assunto especialmente na epístola aos Romanos e Pedro em várias ocasiões faz referência a este tema.

De forma resumida esta transferência consiste na passagem do uso do Templo físico, onde ocorria a dramatização do plano de Salvação e Expiação através do Ritual do Santuário, para uma visão abstrata. Com a morte de Cristo na cruz o Santuário terrestre perdeu o seu significado. O véu do Santuário foi rasgado de cima para baixo (Mt 27:51) denotando o cumprimento daquele tipo de forma física.

O Novo Testamento declara que após a morte de Cristo o povo (invisível) de Deus passou a ser o Templo do Espírito Santo, tanto como coletividade (I Co 3:16) como individualmente (I Co 6:19). O sacerdócio passou a ser, de forma individual, de todos os santos (I Pe 2:5-9). O sacrifício diário ocorre dentro de nós ao sacrificarmos o nosso eu, dando espaço para Cristo pela fé (Gl 2:19-20). O Sumo Sacerdote, Aquele que faz expiação por todo o Templo, é Jesus Cristo (Hb 4:15). A linguagem utilizada recorre sempre ao uso da linguagem que se referia ao Ritual do Santuário no Antigo Testamento.

Ao entender que a transferência do Ritual do Santuário ocorreu do físico para o abstrato torna-se necessário analisar qual, de fato, a função da Igreja e como ela surgiu.

Uma simples pesquisa sobre a origem da Igreja Cristã revelará rapidamente que as suas raízes se encontram muito mais na instituição da Sinagoga do que em qualquer outro lugar, afinal, os primeiros conversos foram Judeus que aceitaram Jesus, o Caminho, como Messias.

A Sinagoga surgiu no período pós-exílico. Ela foi aos poucos desenvolvida para manter a identidade, espiritualidade e religião judaica viva, assim evitando a quebra da Aliança. A deportação ou exílio havia sido reconhecido como a conseqüência máxima desta quebra e medidas foram tomadas para que isto não acontecesse outra vez. Instituíram as Sinagogas como Centros Comunitários de Estudo e Adoração e ao longo do tempo um grupo de estudiosos se formou para dirigir as mesmas. Assim surgiram as reuniões sabatinas para estudar a Torah em edifícios em vez de praças públicas, etc., e, aos poucos, criou-se uma liturgia que se desenvolveu até os dias de hoje. O Templo, em si, só servia poucas vezes para reuniões de assembléia e mesmo assim, somente o pátio era usado.

Creio que fica evidente que as funções que hoje a Igreja cumpre se espelham nas reuniões da Sinagoga e não no Ritual do Santuário que ocorria no Templo. Uma vez compreendendo isto fica mais fácil evitar transferências errôneas da realidade do Templo para a realidade da Igreja. É claro que existem semelhanças, como também haverá semelhanças em outras áreas de vida cristã, pois todas são interligadas pelo mesmo propósito: adorar e servir a Deus. No entanto será necessário ter consciência profunda da função de cada ato para poder encontrar a forma mais adequada para cumprir a desejada função.

Desta forma creio que todo leitor será capaz de entender que nada que se refere ao Templo seja aplicável sine qua non para a Igreja e vice-versa. É necessário um estudo aprofundado para poder fazer afirmações acertadas e seguras, pois construções argumentativas frágeis e tendenciosas têm a tendência de soterrar a médio-longo prazo os arquitetos das mesmas.

Quero deixar claro que não considero as falhas do passado um problema em si, pois todos nós, como indivíduos e como instituição, estamos sujeitos a erros. Considero a falta de reconhecimento das falhas como sendo o maior problema, pois o erro arraigado e até institucionalizado tem a tendência de dificultar, em muito, mudanças profundamente necessárias para o nosso cotidiano cristão. O conceito de Verdade Presente deve ser uma realidade e não uma teoria acadêmica que não encontra respaldo nas práticas do dia-a-dia.

Que estas poucas palavras auxiliem na busca de uma compreensão mais sólida a respeito da adoração em nossos Cultos e assim sirvam de base para um culto consciente.

Um forte abraço

Shalom

17 de jan. de 2010

a ignorância é atrevida

Nos últimos quatro a cinco anos tenho percebido (com certa preocupação) uma intensificação da discussão de música & adoração, música sacra e assuntos afins. Estes assuntos estão longe de ser novidade, mas recentemente parece haver um esforço diferenciado em torno deste assunto. Quero deixar claro que nos meus 11 anos de ministério não tenho me manifestado publicamente a respeito deste assunto a não ser quando solicitado de forma específica e explícita.

Apesar de possuir condições técnicas de discutir este tópico, pois sou formado em teologia, sou pastor ordenado e sou músico, tenho me refreado de discuti-lo pelas seguintes razões:

1) discutir com quem tem pouco conhecimento formal, seja teológico e/ou musical sempre é algo delicado, já que termos técnicos precisam ser explicados de forma profunda e exaustiva. No entanto, este esforço é feito sem que haja a certeza de que o outro lado irá compreender corretamente o que foi explicado, seja por falha da explicação ou do ouvinte. Este motivo sozinho não justifica a falta de participação, pois ele é comum à todas as áreas do saber e se todos adotassem esta atitude ninguém aprenderia nada novo.

2) este assunto mexe profundamente com gostos pessoais e toda vez que especialmente música e religião são o tema central existe uma certa mistificação do assunto, além de um certo deslumbramento e encanto, especialmente por parte daqueles que pouco conhecimento têm. Este deslumbramento unido aos gostos pessoais anuvia muitas vezes o bom juízo e a capacidade de discernimento, fazendo com que pessoas partem para eisegeses em vez de interpretar textos da forma mais isenta e correta possível. Desta forma discussões que poderiam ser saudáveis se tornam pivô de julgamentos apaixonados e muitas vezes não refletem nada do verdadeiro espírito cristão que deveria reinar quando se discute um assunto tão relevante e significativo. A falta de cordialidade e respeito tem marcado muitas destas discussões.

3) por fim, tenho visto que a maioria das pessoas não está aberta a mudanças, algo que é extremamente humano. No entanto, parece que quando o assunto é música e adoração esta teimosia é intensificada. Para mim sempre surge a pergunta: porque devo me expor a ser mau compreendido e até ser julgado pelo meu próximo se não há aparentemente uma ínfima possibilidade de surtir algum efeito? Tem todos os ares de um trabalho de Sísifo.

Todavia devo admitir que tenho visto tanta gente escrever recentemente sobre esta área, pessoas que aparentemente se enquadram em algumas características que descrevi acima, que com muita oração cheguei à conclusão de que devo participar sim deste debate.

Procurarei não ser apologético, quando possível. Procurei colocar fatos e não opiniões.

Um fato é que a maioria daqueles que escrevem a respeito deste tema são pessoas amadoras e, portanto, apaixonadas e não poucas vezes carecem de competência técnica nas duas áreas. Isso não significa que não devam participar, opinar, escrever ou falar.... de modo algum! Só quero classificar estas contribuições. Reparem na seguinte analogia:

Você está com sintomas sérios de alguma doença. O seu vizinho, seus familiares, seus colegas de trabalho, todos sem formação na área de saúde e igualmente muito bem intencionados lhe aconselham várias soluções caseiras para os seus males. Seus sintomas, no entanto, são tão severos que você procura um médico. Este médico lhe examina e chega à conclusão que o seu caso é um caso de um especialista e lhe encaminha para um profissional que terá conhecimentos específicos para lhe ajudar.

Agora, é possível que o remédio caseiro resolva o caso e até pode ser que o médico especialista não resolva, mas não seria razoável dizer que a opinião do especialista, apesar de não ser palavra final, deveria valer muito mais do que a opinião do seu vizinho que não tem formação nenhuma?

Tem muito vizinho opinando na música & adoração, pouco médico falando e, aparentemente nenhum especialista.

É necessário que os vizinhos se enxerguem, os médicos sejam humildes para repassar o caso e os especialistas tenham coragem de se manifestar.

Acredito que chegou a hora!

um forte abraço

Shalom

16 de dez. de 2009

o Oráculo de Google*

Que o Google é hoje uma das maiores potências do mundo poucos terão coragem de desmentir. Que a maioria dos seus produtos ao entrar no mercado já imediatamente atraem uma porção impressionante do mercado no qual acabaram de estrear é fato dado. Eu mesmo estou cada vez mais me tornando usuário dos seus produtos. Orkut (meio antiquado, mas que continua vivo graças à última cirurgia plástica), Blogspot, Google Calendar e, em especial, o Chrome e o Gmail têm se tornado companheiros indispensáveis para mim. Todavia, nenhum destes itens é objeto das minhas considerações hoje.

Todo este império começou com uma simples ferramenta de busca: o Google. Esta ferramenta é tão absurdamente popular que googlear já tem significado próprio. Qualquer coisa, qualquer dúvida, qualquer informação da qual precisamos tem uma simples solução: Google! Em poucos segundos temos, dependendo do nível de especificidade da pesquisa, milhares, muitas vezes milhões de resultados. De forma até lacônica vem a informação de quantos segundos levou para reunir todos esses dados com duas casas decimais após a vírgula, uma clara demonstração de exatidão e poderio que chegaria a intimidar se não fosse tão discreto. A mensagem, no entanto, é clara: comigo ninguém pode... nem tente.

O que, no entanto, me levou a estas considerações é algo que, em minha opinião, reflete perfeitamente o nosso Zeitgeist, o espírito pós-moderno desta nossa época. Se o Google somente reproduzisse os resultados da nossa pesquisa ele representaria os valores da época moderna, época que se encerrou com o fim da Segunda Guerra Mundial.

A época moderna se preocupava com fatos, com a ciência, com a evolução das idéias, da tecnologia, tudo centrado na capacidade do ser humano e na sua auto-superação. Sem querer me aprofundar (poderá ser tema para outro post), mas a presença da Revolução Industrial, do Positivismo e sua evolução (o pensamento Hegeliano e a dialética), a Teoria da Evolução de Darwin e do Existencialismo (especialmente de Nietzsche) não parece ser coincidência.

A falácia desta era moderna foi decretada através das duas grandes Guerras Mundiais. Ficou evidente que o ser humano era mau e que a ciência e o avanço não poderiam salvar a humanidade de si mesma.

Simplificando de forma grosseira foi basicamente através de Freud e Einstein que a nova era, a era pós-moderna, deu os seus primeiros passos. O primeiro demonstrou que temos sérias dificuldades com as nossas emoções e que a nossa percepção do nosso mundo é subjetiva e distorcida. O segundo trouxe para nós o relativismo que mexe profundamente com paradigmas anteriormente estabelecidos em todas as áreas do saber e deixou claro que ainda há tanto para ser conhecido. A nossa pequena capacidade racional não dá conta de captar, muito menos explicar o que nos cerca. Surge a época da busca pela fé, pelo sobrenatural e por experiências emocionais que não estejam ligadas ao status quo religioso, dando surgimento a muitas religiões sincretistas e a busca de religiões pouco conhecidas no ocidente. O êxtase e a emoção se tornaram importantes e socialmente aceitáveis e a religião se tornou o lugar onde a maioria das pessoas as buscava. Religiões tradicionais tiveram que se adaptar aderindo a movimentos carismáticos e religiões que possuíam vertentes místicas observavam exatamente estas crescendo em popularidade e visibilidade. O subjetivismo e individualismo imperam. Fatos sem relevância perdem o sentido e as perguntas mais pensadas e expressadas são "O que isso tem a ver comigo? Qual o significado ‘disso’ ou ‘daquilo’ para mim?".

E agora, afinal, o que isso tem a ver com o buscador Google? Simples: a meu ver o grande sucesso do Google é que ele não somente trás informações, fatos. Se eu fizer uma pesquisa no meu computador com uma série de palavras e você fizer a mesma no seu computador os resultados serão diferentes (isso se tivermos os cookies habilitados). O Google não somente me dá os resultados da pesquisa, mas também aprende sobre as minhas preferências enquanto eu navego e pesquiso. Com isso ele coloca uma ordem diferenciada de resultados para mim baseado naquilo que eu considero relevante e importante. Os criadores do Google compreenderam o espírito da nossa época pós-moderna: fatos com relevância pessoal, algo sob medida de acordo com as minhas necessidades e preferências. Este é o segredo de sucesso deste império: produzir produtos que vêm ao encontro das minhas necessidades e que sejam configuráveis às minhas necessidades específicas.

Não é de se surpreender que muitos (possivelmente a maioria) tratam a religião da mesma forma: algo relativo e subjetivo centrada somente no indivíduo. Montam as suas crenças segundo as suas próprias idéias e acreditam que ter fé já é o suficiente. Não existem absolutos, somente verdades transitórias e experiências pessoais expressas em estórias cujos princípios precisam ser extraídos. Enquanto trouxer algo positivo para mim naquele momento a fonte destes princípios não terá importância.

Como afirmar que há alguma coisa absoluta em meio a esta época? Como afirmar que há um livro que seja, de fato, inspirado por Deus e imutável? Que Deus seria este? O Deus do Al Korão, do Livro dos Mortos, da Bíblia, etc.? Tudo se tornou tão relativo, tão inseguro, tão subjetivo e tão politicamente incorreto que temos receio de nos manifestar com certeza a respeito de qualquer assunto, especialmente religião.

(Vale aqui um rápido parêntese: viver aquilo em que eu acredito poder ser visto como sendo radical; obrigar o outro a viver aquilo em que eu acredito é ser fanático.)

A verdade é que o fim desta era pós-moderna já se manifesta. Sei que é muito cedo para analisar a mudança, mas mesmo assim ouso ser profeta da próxima era. Não que esteja sendo original (de forma alguma), mas a imensa maioria ainda não se conscientizou de que os tempos estão mudando.

Com 11/09, a grande crise financeira mundial e a mudança climática estamos aos poucos percebendo que o individualismo ao extremo têm trazido sérios problemas para a coletividade, o bem comum. Estamos mais dispostos a abrirmos mão da nossa individualidade para assegurar as coisas básicas da existência: segurança, sustentabilidade e sobrevivência.

Com o assalto que eu sofri neste final de semana passado surgiu um anseio em mim que antes não existia, pelo menos não desta forma: o desejo de segurança e do direito de viver com dignidade. Hoje estou um pouco mais disposto a abrir mão de algumas coisas em função disso e a luta interior entre o idealista e o pragmático provavelmente dependerá da quantidade assaltos, desempregos e vendavais/inundações pelos quais eu passarei no futuro.

Na prática estamos percebendo que o nosso modo de viver tem trazido tremendos prejuízos para nós mesmos e para aqueles que nos cercam. Vivemos uma crise global como provavelmente nunca dantes existiu. Depois de décadas vivendo desta forma o ser humano descobre que esta maneira ameaça diretamente a sua segurança, seu sustento e sua própria existência neste planeta. Está buscando uma saída, um novo jeito de viver e pensar apesar das aparentes dificuldades de romper com hábitos há tanto tempo estabelecidos. Procuramos um modo alternativo de viver, seja em termos de fontes de energia, de governos, de alimentação e de crenças.

Aceitar Deus como uma realidade em nossas vidas não somente foca um futuro paradisíaco após a morte. Não é algo que me ajuda somente a superar os problemas de hoje com a promessa do porvir. Esta aceitação nos habilita a viver esta vida aqui, neste planeta com estas pessoas que nos cercam com mais sucesso e satisfação (não me refiro aqui à ausência de problemas). Já que o nosso estilo de vida tem se mostrado tão ineficaz de resolver as maiores necessidades do ser humano talvez esteja na hora de nos abrirmos para a possibilidade Dele nos guiar em uma experiência de relacionamento com Ele. Acredito que vale a pena experimentar.

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é discernido.” I Co 2:14-15

Quem sabe você encontrou este post por algum produto do Google, seja pesquisa, e-mail ou Orkut... não importa: o importante é abrir espaço para experimentar algo diferente e novo ou, quem sabe, renovar o que já se tem.

Um forte abraço

Shalom

* o título é uma referência ao 'Oráculo de Delphi'

12 de dez. de 2009

assalto

Ontem a noite sofri o primeiro assalto em minha vida.
Havia planejado prestigiar a ordenação ao ministério do meu grande amigo Pr. Sérgio Festa (que sobrenome!) e fiz os preparativos necessários para que pudesse estar lá.
Tudo começou quando eu perdi o meu vôo. Foi a primeira vez em toda a minha vida. Procurei por outros vôos, mas vi que todos eram muito, mas muito mais caros e, portanto, decidi pegar o primeiro ônibus que aparecesse na vergonhosa Rodoferroviária da nossa Capital Federal. Lá encontrei uma empresa que eu desconhecia, a Trans Brasil, mas que saia uma hora mais cedo que a outra e já que tinha pressa para chegar em São Paulo comprei a passagem.
Depois de aprox. duas horas e meia de viagem, sendo que grande parte deste tempo envolvendo atraso e trânsito para sair de Brasília, e pouco tempo depois de ter dado boa noite via celular para o meu filho e a minha esposa fomos todos surpreendidos por uma freada violenta do ônibus. O passageiro do outro lado do corredor olhou para fora e gritou: "É assalto!"
A partir daquele momento começou um dos episódios mais surreais de toda a minha vida. Gritaria, tiros, ameaças e provavelmente os 45 minutos mais longos e angustiantes dos quais tenho lembrança se seguiram. Eu acredito que só quem já passou por isso consegue entender o sofrimento deste tipo de situação, onde certas coisas passam a ser insignificantes e outras se demonstram ser prioridade absoluta como a vida e a família. Eu passei este tempo todo orando em silêncio e lembrando dos meus queridos.
Depois que tudo passou juntamos informações e vimos que o ônibus, uma vez abordado, havia sido levado para uma floresta, longe de qualquer pista movimentada. Também não havia sinal de celular nesta região e apesar de algumas pessoas terem conseguido esconder os seus estes se mostravam inúteis naquele momento. Três homens entraram no ônibus, mas havia pelo menos mais uma pessoa conduzindo uma camionete. Estavam armados com pistolas calibre 22 e espingardas 12 (fui informado disso, pois não entendo de armas). O trecho do assalto foi apox. 40km depois de Cristalina em direção a Catalão.
Levaram a minha bolsa que além de roupas e carregadores do Palm e celular continha equipamentos e acessórios de áudio (o meu recém adquirido DAC, cabos de interconexão e digital) que sozinhos valem aprox. USD 4000 (fora do Brasil; imagino o custo deles por aqui) e que os bandidos não conseguirão sequer vender. Tinha a intenção de visitar alguns amigos para ouvir música em São Paulo e costumeiramente levamos itens para testar nos sistemas de áudio uns dos outros. Também perdi os meus CDs prediletos, aqueles que pretendia ouvir na casa destes amigos e levaram o meu celular.
Não segui viagem para São Paulo, pois como não tinha mais roupas teria que comprar tudo por lá o que acarretaria muito custo para mim. Em função disso voltei à Brasília com mais dois passageiros no ônibus que foi alvo do assalto hoje de manhã. Somente chegando no condomínio onde moro liguei para minha esposa, pois não queria acordá-la no meio da noite com aquele tipo de notícia. Seria muito sofrimento desnecessário. Depois de contar um pouco do ocorrido cai exausto fisica e emocionalmente na cama.
Duas coisas positivas, no entanto, levo comigo deste incidente:
1) Há coisas valorosas e há coisas essenciais. Isso é tão óbvio e soa tão pastoral, mas existe um sabor diferente nesta classificação depois do episódio de ontem. Estou muito triste pela perda dos meus equipamentos, mas sinceramente dou graças a Deus pela minha vida e por ter o privilégio de continuar vivendo.
2) Apesar de ter passado por esta experiência traumática sinto que mesmo assim saí ganhando. Só quem vive este tipo de situação sabe quão angustiante é, mas de fato não é nada incomum. Quantas pessoas já passaram por aquilo que eu passei. A diferença é que quando alguém disser: "fui assaltado" ouvirei com os ouvidos da verdadeira empatia. Não acredito que temos que passar por tudo de ruim neste mundo para poder simpatizar com uma situação, mas percebo cada vez mais que a verdadeira empatia vem da experiência e não do exercício intelectual do 'se colocar no lugar de'. A partir de hoje tenho verdadeira empatia com que já passou por isso e creio que isso me tornará um cristão e ser humano melhor.
E agora também entendo melhor que só há Um que pode me entender completamente, Aquele que foi tentado em todas as coisas, e, portanto, tem verdadeira empatia com o que nós passamos em nosso difícil dia-a-dia. Me lembro das seguintes palavras do autor de Hebreus: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer- se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, para que recebamos misericórdia e achemos graça, a fim de sermos socorridos no momento oportuno." Hb 4:15-16
Graças a Deus por um Salvador que sabe das minhas e das suas lutas! Empatia é reconfortante, especialmente quando vem acompanhada da Onipotência.
um forte abraço
Shalom

Por sinal: se alguém já passou por isso e tem dicas de como tentar reaver as coisas via empresa, etc. por gentileza entre em contato! :D

19 de nov. de 2009

questões tolas

Sou um ser que gosta de debater. Sou assim por natureza e, para piorar as coisas, fui educado desta forma. Questionar é o meu método predileto de buscar a verdade, pois me obriga a saber a razão por trás das coisas. É uma atitude pseudo-mayéutica, puxando mais para um diálogo dialético. Muitas vezes assumo posição B só porque o interlocutor assumiu posição A. Quero ver até que ponto os argumentos do outro são consistentes e até que ponto posso defender a minha posição. Só para me testar e testar o outro também. Hoje entendo que isso é extremamente desagradável, para não dizer chato e intragável... e também cria uma aura de arrogância. Esta última impressão é até realista no momento em que a razão e a lógica (a última sendo um dos modos operandi da primeira) saem pelas portas do fundo e dão lugar à retórica e vaidade que só se preocupam em ganhar a argumentação em vez de buscar a verdade. Fato é que já tive muita discussão inútil em minha vida onde deixei bastante gente chateada comigo por me preocupar mais com a causa do que com a pessoa (e tantas outras vezes em me sobresair na discussão).
Aí aparece o excelente conselho de Paulo à Tito. Em Tito 3:9 ele diz: "Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não têm utilidade e são fúteis." Que conselho fantástico! No entanto é necessário compreender o que são, de fato, 'discussões insensatas' para não carimbarmos boas e produtivas discussões desta maneira. Muitas e muitas vezes boas discussões são e continuarão sendo desagradáveis, pois mexem com assuntos sensíveis que não poucas vezes nos transmitem uma sensação de insegurança e descontrole. Não é a toa que tradições são estabelecidas. Muitas vezes têm raison d'être, razão de existir, mas na maioria das vezes passam a ser seguidas sem a compreensão do que está por detrás das mesmas e, com isso, se tornam não somente improdutivas, mas acima de tudo nocivas, pois meras repetições sem consciência do que se faz são mais do que irrelevantes: são emburrecedoras e, portanto, manipulativas.
E é à isso que Paulo se refere. Ele menciona 'genealogias' e 'contendas e debates sobre a lei'. Não pretendo explanar aqui as diferentes interpretações que comentaristas têm a respeito destas expressões, sejam os aeons gnósticos, as genealogias literais do povo judeu, as brigas entre as escolas de Hillel e Shammai, as disputas no Mishnah e Talmud, etc., etc., etc.... uma coisa é clara: trata se da inútil e improdutiva discussão sobre detalhes irrelevantes da tradição.
Não me entendam mal: uma discussão sem uma conclusão clara não é necessariamente improdutiva, pois pode ter estimulado o pensamento e aumentado o conhecimento e, acima de tudo, a consciência a respeito de certo assunto. Improdutivo significa que como resultado pessoas estejam tanto intelectualmente como pessoalmente em lados opostos; onde há divergência emocional, mesmo civilizadamente disfarçada.
Toda vez que este resultado é obtido é necessário questionar-se se realmente valeu a pena. E, se formos sinceros, a resposta muitas vezes será negativa.
Hoje quero procurar boas discussões com verdadeiro interesse de encontrar mais verdade (em vez de 'A verdade') abrindo mão da minha retórica e vaidade, das minhas inseguranças. Quem sabe hoje poderei, com muita humildade e pelo poder de Deus, me tornar mais consciente da vontade Dele para a minha vida? Isso sim, seria um milagre!
Tenham um ótimo dia
Shalom

28 de out. de 2009

24 de out. de 2009

conhecimento & humildade


No passado eu tinha a tendência de ler para me divertir. Li literalmente milhares de páginas para passar o tempo de forma que me agradasse.
Depois passei a ler para saber, para adquirir conhecimento e muitas vezes este conhecimento me levava à uma segurança que beirava arrogância.
Hoje, quanto mais eu leio, mais percebo o quão pouco sei. Sinceramente! Não é falsa modéstia.
Hoje, ao ler, sinto o vazio de todo o conhecimento que não tenho. Isso me torna mais realista e, portanto, humilde.
Hoje I Co 3:19 tem outro significado para mim.
"Porque a Sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia;"
Que apesar das nossas severas limitações saibamos aceitar o valor que Deus nos dá, mesmo sem compreender a grandeza disso.
shabbat shalom